antónio gonçalves

ao que uma tarde me oferece.

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Naquela mesaonde sou detido pelo tempo, estou como aparência feita realidade da montra docafé. Dos que me lançam o olhar, apenas retenho névoa passeante e liberto-os noímpeto. Ao gesto cândido de beber o café, admito-me leitor em primazia do queme servirá de alva.

Ai, sempreme revi neste amplexo de gesto pardo, onde o mais simples do momento me poderiaassistir ao primordial do medo.

Um tempofeito forma, uma verdade feita incógnita que se despede em passo lento. Asvozes que ali habitam arrumam tempos idos, agasalham os verbos e o sussurro élivre audácia do que ainda acreditam ser o imaginável.

Eu, comofigura, desprovido da caracterização, alinhado num silêncio arbóreo, detenho-mena horizontal alegria de ainda querer respirar segredos. Admitindo as vezes quese repetem os gestos, que eternizam a melancolia, que lhe dão impiedosareminiscência e nos fazem coabitar tão largas avenidas acreditando na primeiravez como plenitude.

Naquela mesaonde ainda digo, tempo, aparo o meu brilho, para retomar a senda.

2 Responses to this post
  1. Posted on February 27, 2012 by Anonymous

    Que maravilha,de regresso aos textos poéticos.
    Tentarei não perder nenhum.

  2. Posted on March 20, 2012 by Anonymous

    POSSIBILIDADES

    Prefiro cinema.
    Prefiro os gatos.
    Prefiro os carvalhos nas margens do Warta.
    Prefiro Dickens a Doistoievski.
    Prefiro-me gostando dos homens
    em vez de estar amando a humanidade.
    Prefiro ter uma agulha preparada com a linha.
    Prefiro a cor verde.
    Prefiro não afirmar
    que a razão é culpada de tudo.
    Prefiro as excepções.
    Prefiro sair mais cedo.
    Prefiro conversar com os médicos sobre outra coisa.
    Prefiro as velhas ilustrações listradas.
    Prefiro o ridículo de escrever poemas
    ao ridículo de não escrever.
    No amor prefiro os aniversários não redondos
    para serem comemorados cada dia.
    Prefiro os moralistas,
    que não prometem nada.
    Prefiro a bondade esperta à bondade ingénua demais.
    Prefiro a terra à paisana.
    Prefiro os países conquistados aos países conquistadores.
    Prefiro ter abjecções.
    Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
    Prefiro contos de fada de Grimm às manchetes de jornais.
    Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
    Prefiro os cães com o rabo não cortado.
    Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
    Prefiro as gavetas.
    Prefiro muitas coisas que aqui não disse,
    e outras tantas não mencionadas aqui.
    Prefiro os zeros à solta
    a tê-los numa fila junto ao algarismo.
    Prefiro o tempo do insecto ao tempo das estrelas.
    Prefiro isolar.
    Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
    Prefiro levar em consideração até a possibilidade
    do ser ter a sua razão.

    Wislawa Szymborska, in "rosa do mundo" assírio & alvim, 2001

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